História

Em 16 de junho de 1915 foi fundada a Liga Sportiva Pernambucana (LSP) – hoje, Federação Pernambucana de Futebol (FPF). À época, o Recife entrava na era da eletricidade. Os lampiões a gás – que, por muitos anos, iluminaram nossa capital – se converteram em peças de museu, enquanto os burros que puxavam os bondes pelas bucólicas ruas da cidade foram aposentados.

O novo século transformou a paisagem do Recife em todos os aspectos: no político, no social, no cultural e no econômico. O gosto da população pelos esportes também mudava. As regatas e as corridas de cavalo, que atraíam grande público, perdiam espaço e já não eram mais prioridade entre as notícias de jornais.

O futebol, iniciado oficialmente, aqui, em 1905, tinha, dez anos depois, se alastrado por toda a cidade como uma epidemia. Os clubes com mais simpatizantes (a palavra “torcida” inexistia) eram o Sport, Náutico, João de Barros (depois América), Santa Cruz, Torre, Flamengo, Centro Sportivo de Peres, Paulista e Casa Forte. Outros de menor expressão, como o Riachuelo, Botafogo, Paulistano, Internacional, Fluminense, Olinda, Velox e Americano também marcavam presença no cenário local. Apesar dos inúmeros campos improvisados espalhados pelos subúrbios, a preferência era sempre pela campina do Derby, por ser um local mais espaçoso e arborizado, tendo sido, inclusive, o local do primeiro jogo de futebol assistido pelo público, no Recife, em 1905.

O crescimento do futebol era rápido, porém, desordenado. Surgiu a imperiosa necessidade de ser fundada uma entidade esportiva para coordenar e disciplinar o novo esporte. Um dia, após um treino do João de Barros, um time de jovens do bairro do mesmo nome, Eduardo Lemos, líder do grupo, conversou com seus companheiros sobre a necessidade da criação de uma Liga para promover campeonatos pela cidade.

Todos concordaram com a ideia, ficando decidido que o assunto seria tratado na próxima reunião do João de Barros, em uma assembleia geral. E assim, na casa de Aristheu Accioly Lins, que também servia como sede do João de Barros, seria lançada a primeira semente do que é, hoje, a Federação Pernambucana de Futebol.

O grupo do João de Barros queria que fosse montada uma entidade bem estruturada, sólida, para não fracassar, como acontecera, em 1912, com a Liga Pernambucana de Foot-Ball – que ressurgiu no ano seguinte, com o mesmo nome, e tampouco prosperou, por falta de organização. O mesmo tinha acontecido com a Liga Recifense, havia pouco mais de um ano. Os erros cometidos não poderiam se repetir.

No dia 16 de junho de 1915, o Diário de Pernambuco anunciava o importante encontro dos dirigentes para a criação da tão sonhada liga:

“Hoje, às 18 horas, haverá reunião das comissões representativas dos clubes esportivos desta capital, a fim de discutirem o melhor de organização de uma Liga de Futebol. Pede-se o comparecimento das comissões de todos os clubes à dita reunião, que se efetuará na Estrada de João de Barros, número 19-A”

A Liga foi, então, fundada e os detalhes somente publicados três dias depois, pelo Jornal do Recife, em sua terceira página:

“Conforme fora previamente anunciado, efetuou-se no dia 16 de junho do fluente, a reunião promovida pelo João de Barros Futebol Clube, para tratar-se da organização de uma Liga que, promovendo torneios e campeonatos, desenvolva o futebol em nosso meio. Fizeram-se representar na reunião, os seguintes clubes desta Capital: João de Barros Futebol Clube, Centro Sportivo do Peres, Sport Clube Flamengo, Santa Cruz Futebol Clube e Agros Sport Club de Socorro. Por proposta do Sr. Eduardo Lemos, foi aclamado presidente o Sr. Aristheu Accioly Lins, que, assumindo a presidência, declarou aberta a sessão, após ter agradecido a aclamação do seu nome para presidente da Liga. Sua diretoria ficou assim composta: vice-presidente Eduardo Lemos; primeiro-secretário Olinto Jácome; segundo secretário, Osvaldo Antunes; tesoureiro, Severino Arruda; orador, Antonio Miranda e vice-orador Alcindo Wanderley. Foram os seguintes os representantes que compareceram: Flamengo, Antonio Miranda, Herotildes Xavier e o acadêmico Joaquim Chaves; Centro Sportivo do Peres, Bruno Burlini, acadêmico Olinto Jácome e Severino Arruda; João de Barros, Eduardo Lemos, Otavio Oliveira e acadêmico Aristheu Accioly Lins; Agros Sport Clube, João Ranulfo e acadêmico Osvaldo Antunes; Santa Cruz, Alcindo Wanderley.”

A ata de fundação, ainda hoje em poder da entidade, complementa a matéria do jornal, contando com detalhes o que aconteceu naquela noite, conforme transcrição a seguir:

“O Sr. primeiro secretário lê o expediente, que consta de um ofício do Casa Forte Futebol Clube, agradecendo o convite da comissão organizadora da Liga, pedindo desculpas por não fazer parte de tão útil agremiação. Terminado o expediente, passe-se à ordem do dia. O Sr. Eduardo Lemos pede a palavra e propõe que se trate do nome que deve tomar a novel associação e lembra o nome da Liga Pernambucana de Esportes. É posta em discussão. O Sr. Antonio Miranda apresenta emenda, que se deve adotar este nome, acrescentando Atléticos. Ambas as propostas são rejeitas. O Sr. Aristheu propõe o nome de Liga Sportiva Pernambucana, que é aceito.

O Sr. presidente nomeia a comissão para elaborar os estatutos, que ficou assim constituída: Eduardo Lemos, relator, Bruno Burlini; João Ranulfo, Alcindo Wanderley e Joaquim Chaves. O Sr. Bruno Burlini pede a palavra e propõe que os clubes na próxima reunião apresentem as listas dos seus associados. Depois de diversos apartes dos Srs. Joaquim Chaves e Antonio Miranda, achando que era cedo, foi rejeitada. O Sr. Miranda propõe que os clubes oficiem à Liga, apresentando seus representantes e que em caso de faltarem alguns deles, também seja oficiada à Liga, designando seus substitutos para evitar que de futuro não acontecesse o que se estava vendo na atual sessão, pois que o Sr. João Ranulfo era do Agros e do Flamengo e, no entanto, estava representando o primeiro destes clubes. É aprovado. O presidente encerra a sessão e marca para segunda-feira, 21 do corrente, às 18 horas, uma nova reunião”.

Primeira eleição

No dia 7 de julho de 1915, menos de um mês após a sua fundação, foi realizada a primeira eleição da entidade, da qual saiu vitorioso o Sr. Alcebíades Braga, presidente do Sport Club Flamengo e um dos fundadores da LSP, com sete votos. Para vice-presidente, Olinto Jácome foi escolhido com oito votos. Para primeiro secretário, Anísio Araújo, com oito votos; segundo secretário, José Albuquerque, nove votos; tesoureiro, Aristheu Accioly Lins, sete votos; orador, Luiz Machado Dias, dez votos; vice, Alberto Campos, sete votos; e, para presidente da Comissão de Jogos, José de Orange, com nove votos.

Observa-se que estava de fora, curiosamente, da primeira diretoria eleita, Eduardo Lemos, o homem que dera a ideia para que fosse fundada uma entidade esportiva. Outro fato que chama a atenção é o do aparecimento de Alcebíades Braga, assumindo pelo voto o mais alto cargo da Liga, uma vez que se esperava a permanência de Aristheu Accioly Lins.

Nascida como Liga Sportiva Pernambucana (LSP), em 1915, este nome não permaneceria muito tempo. Em 1918, mudava-se para Liga Pernambucana de Desportos Terrestre (LPDT); posteriormente, em 1931, para Federação Pernambucana de Desportos (FPD); e, finalmente, em 1955, para o nome que mantém até hoje: Federação Pernambucana de Futebol.

Foi somente na gestão do médico José do Rego Vieira (1951 – 1952), que a FPF conseguiu sua sede própria, depois de uma peregrinação de mais de 35 anos. Era uma casa simples, modesta, de uma porta e duas janelas, número 871, localizada no bairro da Boa Vista – que a imprensa e dirigentes dos clubes achavam “bastante contramão”, pela distância do centro da cidade. A casa foi comprada por Cr$ 300.000,00, à vista, com recursos próprios da entidade, que investiu muitos outros cruzeiros para adaptar o prédio às necessidades da Federação.

No mês de março de 1968, tratores, empilhadeiras, pás mecânicas e operários da Construtora Jorge Martins transformaram em escombros aquilo que fora um deslumbramento para os olhos do desportista Inaldo Cerqueira. Tudo virava pó. Da velha casa 871 só restava o chão. Ali, naquele local, deveria ser erguido brevemente o Palácio dos Esportes. Assim prometia o presidente da Federação, Rubem Moreira, em 2 de maio de 1968, dia em que o governador do Estado, Nilo de Souza Coelho, lançava a pedra fundamental da monumental obra.

Os recursos para a construção da imponente sede vieram de todos os lados. Com o seu prestígio junto aos poderes públicos, veio dinheiro através de subvenções dos governos federal, estadual e municipal, e do próprio futebol de Pernambuco. Rubem Moreira conseguiu que a assembleia geral dos clubes lhe autorizasse a fazer um desconto por ingresso, em jogos do campeonato ou amistosos, em benefício da construção do Palácio dos Esportes. O Relatório Geral da FPF – 1971 registra que o Palácio dos Esportes custou Cr$ 2,4 milhões, conforme consigna o Boletim da CBD, ano 3, número 20.

Recife viveu uma semana inteira de festas no mês de junho de 1972. No domingo (5), era inaugurado oficialmente o Estádio José do Rego Maciel, o Arruda; no dia 9, o povo conhecia a nova sede da Federação e, dois dias depois, no domingo 11, iniciavam-se os jogos da Mini Copa, competição promovida pela Confederação Brasileira de Desportos (CBD) para comemorar os 150 anos de Independência do Brasil.

No dia da inauguração, a Federação mandou publicar nos jornais duas notas oficiais. A primeira convidava os desportistas para assistirem, às 8 horas, na Matriz de Santo Antônio, à missa solene em Ação de Graça, alusiva ao acontecimento; a segunda era também um convite, este aos desportistas, para assistirem, na Assembleia Legislativa do Estado, a entrega do título de Cidadão de Pernambuco ao presidente da CBD, João Havelange.

À noite, abriram-se as portas do Palácio dos Esportes para receber os ilustres convidados. Coube ao governador do Estado, ministro Eraldo Gueiros Leite, em companhia dos presidentes da Confederação Brasileira de Desportos e do Conselho Nacional dos Desportos, respectivamente, João Havelange e brigadeiro Jerônimo Bastos, cortar a fita simbólica sob muitas palmas. Rubem sentia-se realizado e orgulhoso de poder despachar na mais suntuosa entidade esportiva do País.

Passaram pela entidade 30 presidentes, três deles por duas vezes, Artur Campelo (1918 e 1925); Renato Silveira (1928 e 1930) e Edgar Fernandes (1938 e 1941). Onze deles não concluíram o mandato, renunciando ao cargo por motivos dos mais variados. De 1915 a 1931, a gestão era de apenas um ano, passando, daí em diante, para dois, perdurando até 1988. A partir desta data, o mandato foi ampliado para três anos e, posteriormente, em 1990, para quatro – com possibilidade de reeleição.

Desde 1995 até 2011, a FPF foi presidida por Carlos Alberto Gomes de Oliveira. Nesta administração, foi realizado um grande trabalho de interiorização do futebol profissional. Uma conquista do então presidente, entre muitas, foi conseguir que os jogos do Campeonato Pernambucano de Futebol Profissional fossem transmitidos pela Rede Globo Nordeste, fazendo de Pernambuco o quarto estado brasileiro a ter seus jogos transmitidos em programação local e nacional. 

No início de setembro de 2011, após o lamentável e repentino falecimento de Carlos Alberto Oliveira, a FPF passou a ser comandada pelo antes 1o. vice-presidente da casa, Evandro Carvalho. O atual presidente da Federação Pernambucana de Futebol integra a entidade desde 1985, tendo exercido diversas funções em vários cargos até assumir a presidência.